Astrologia pode ser definida como um modelo explicativo sobre o homem e o mundo ao seu redor, um sistema de compreensão da interação entre o movimento do universo e os seres humanos, partindo do pressuposto que existe uma relação entre fenômenos regulares e previsíveis que ocorrem no céu e eventos terrestres. Se esta relação é física, de fato, é um tema de discussão até os dias atuais.

Este sistema foi inicialmente elaborado, numa busca de significado à realidade, e é bastante antigo, cujo conhecimento data, aproximadamente, do século VII a.C. Neste período, a Astrologia era uma área de conhecimento misturada à Astronomia, uma vez que o ser humano ainda não havia delimitado o âmbito de atuação do cenário científico. Da mesma forma, a Astrologia comunicava-se com outros campos de conhecimento, como é o caso da religião.

O exercício religioso do homem dito "primitivo" era expresso na crença do encantamento do mundo. Naquele sistema de crenças, atribuía-se aos astros poderes divinos (Deus Sol, Deusa Lua), uma vez que todo universo era compreendido como manifestações de um poder sobre-humano. "A ordem cósmica era ao mesmo tempo modelo e garantia da ordem social" Para algumas seitas indianas, a respiração das almas que deixavam a Terra determinava as fases da Lua , indicando a necessidade do ser humano de dar sentido a algo grandioso, que acontecia frente a seus olhos.

Entre os sumérios (Mesopotâmia), a Astrologia estava intimamente ligada à prática religiosa, já que os astrólogos eram sacerdotes-escribas e seu saber era reservado apenas a alguns membros da aristocracia. Neste período (séculos VII a IV a.C.), as predições astrológicas diziam respeito a acontecimentos coletivos, como catástrofes, guerras e ainda não havia os mapas astrais individualizados. A capacidade preditiva da Astrologia sempre foi tida como algo plausível, uma vez que o movimento celeste é previsível, por isso, as previsões foram uma das suas principais aplicações durante anos. Isto não quer dizer que "o nosso destino esteja escrito nas estrelas". Segundo Plotino, "O movimento dos astros indica os eventos futuros, e não os produz, como se crê freqüentemente" . Logo, os astros não apontam um caráter determinista, e sim de tendência e predisposição para que certos eventos ocorram.

A partir do século III a.C., com a conquista Alexandrina, no entanto, a Astrologia passa a ter um caráter mais individual e é espalhada pelo mundo helenístico e depois romano . Este é o primeiro boom da Astrologia, que passa a fazer parte da cultura greco-romana. Por volta do século I a.C., já se tem notícia de astrólogos romanos: Tarutius de Firmum e Publius Nigidius Figulus. Segundo Machado (2004) , o estoicismo (escola filosófica que influenciou consideravelmente a elite romana) foi um dos principais elementos responsáveis pela respeitabilidade atribuída à astrologia em Roma.

Augusto, governante de 30 a 14 a.C., mandou cunhar o símbolo do Capricórnio nas moedas romanas, e Tiberius, o governante posterior a Augusto, foi o primeiro a contar com um astrólogo em sua corte , que se chamava Thrasyllus.

Portanto, a Astrologia foi, durante séculos, valorizada pela cultura popular e pela nobreza, de um modo geral, entre os sumérios, passando pelos egípicos e pela civilização greco-romana. Os imperadores utilizavam suas previsões para guerras e decisões importantes do reino.

Alguns dos grandes pensadores da humanidade, como Ptolomeu, Platão e Aristóteles preocuparam-se com a Astrologia em seus estudos. A filosofia aristotélica admite que eventos terrestres, como alguns fenômenos meteorológicos e as marés, por exemplo, sejam afetados pelos movimentos dos corpos celestes, conforme postula a Astrologia . Da mesma forma, Pitágoras, o grande matemático, também apresentou-se como um admirador da Astrologia. Apesar do prestígio da Astrologia neste período, já eram feitas críticas ao determinismo da mesma, por alguns autores, como Cícero (séc I a.C.) e Plotino (séc. III d.C.).

IDADE MÉDIA: ASTROLOGIA X IGREJA CATÓLICA

Em contraposição à astrologia caldaica e sumérica, com o avanço das técnicas astrológicas e com sua popularização após a era romana, a astrologia perde seu caráter religioso e, na Idade Média, passa a incomodar alguns posicionamentos da Igreja Católica, que tinha a hegemonia do poder político e o monopólio do conhecimento. Assim como a geografia, que "ficou subordinada à teologia" , a ciência que embasa o modelo astrológico - a astronomia - teve seu desenvolvimento atravancado pela necessidade da Igreja Católica de confirmar seus ensinamentos, na época. Muitos mapas mundiais foram confeccionados, com uma concepção da Terra como plana e regular, em torno da qual o Sol se moveria, produzindo as estações. Este foi o princípio da chamada teoria Geocêntrica, que, obviamente, não pôde ser sustentada durante muito tempo.

Santo Agostinho (354 a 430) assume que cometera um erro ao acreditar em Astrologia, transformando seu discurso e atacando agressivamente aquela área de conhecimento, ao converter-se para o cristianismo católico . Sob o argumento de que o homem se isentava da responsabilidade sobre seus atos e pecados, atribuindo esta aos astros, Agostinho condena veementemente a Astrologia.

A Astrologia, neste período, passa a ser condenada pelos católicos, e considerada como uma área concorrente, na medida em que suscita uma crença em um poder que não é divino e desafia a autoridade moral da Igreja católica, autorizando a ação "arrogante" do astrólogo de intervir na ordem do mundo, em desrespeito à vontade divina. Neste sentido, qualquer manifestação que pudesse pôr em dúvida o poder do Deus único, como passou a ser o caso da astrologia, era combatida pela Igreja católica.

Entretanto, mesmo na Idade Média, havia muitos padres simpatizantes da astrologia - como São Tomás de Aquino - e o importante astrólogo do século XVI, Nostradamus (1503-1566), apesar de perseguido pelo catolicismo fervoroso, teve seu brilhantismo reconhecido, mais tarde, pela Igreja, e suas habilidades de profeta foram requisitadas pelo bispo de Orange, em 1561, a fim de localizar um cálice de prata roubado da Igreja.

RENASCIMENTO: O NOVO BOOM DA ASTROLOGIA

No Renascimento, alguns fatores são fundamentais para a retomada do prestígio da Astrologia, após a Idade Média, como: a criação das universidades e o surgimento da imprensa. "A partir do século XIII, com a criação das universidades na Europa, a Astrologia era lecionada junto com a medicina, pois só assim se acreditava poder conhecer a constituição do paciente" . Dessa maneira, foi sendo desenvolvida uma Astrologia erudita.

Em 1453, com o advento da imprensa, os cálculos astrológicos foram facilitados e, com isso, a confecção dos mapas astrais passou a ser mais rápida, exigindo menos necessidade técnica. Portanto, não eram mais necessários astrônomos ou matemáticos para realizar os cálculos astrológicos. Nesse período, a ciência começou a se expandir consideravelmente, estimulada talvez pelo retorno às fontes antigas e pelos grandes descobrimentos.Os astrólogos gozavam de respeitabilidade, exercendo, inclusive, funções públicas nesta época.

Ainda sim, existiam autores críticos à Astrologia, como houve desde seu nascimento. Um destes autores, foi Pico della Mirandola (1469-1533), que critica a mistura de religião e ciência que ocorre na astrologia.

Em meio a este cenário, Copérnico (1473-1543) revoluciona a ciência, comprovando a teoria heliocêntrica, a qual é verificada por Galileu (1564-1642), e Kepler (1571-1630) formula algumas de suas leis. Kepler e Galileu eram astrólogos, mas concebiam a astrologia de maneira crítica. Finalmente, Newton acaba com o sentido de distinção entre mundo superior e inferior, colocando a Terra no patamar de qualquer outro planeta e dando início ao declínio do prestígio da Astrologia no mundo atual.

ASTROLOGIA NO MUNDO PÓS-MODERNO

A ciência moderna, o cartesianismo e o positivismo materialista reforçaram a marginalização da Astrologia perante estudos que possam ser considerados sérios na comunidade científica. Renegada pela religião e ridicularizada pela ciência, a Astrologia viu-se sem um "lugar teórico" e com poucas possibilidades de ser pesquisada dentro das universidades.

Contudo, ela permanece viva entre a população e é difundida por meios informais. Desde 1930, as seções astrológicas dos jornais e rádios, em forma de horóscopo diário, multiplicam-se. Esta informalidade reforça a falta de definição teórica desta área.

Alguns autores na atualidade, como Pierucci, colocam a astrologia no patamar de "magia profissional", a qual é praticada pelos advinhos, por intermédio de recursos técnicos, como os cálculos celestes. Afinal, a Astrologia pode ser compreendida como ciência? Ou como magia, como pensam alguns? Ou tem a ver com outros elementos, como Deus?

Não foi até hoje, por meio da observação dos fatos, que a ciência se constituiu como tal? Há milênios, a Astrologia tenta estabelecer esta relação do cosmos com o ser humano, e, apesar da dificuldade de ser reconhecida na atualidade como uma área científica, há avanços significativos nas pesquisas, desde o último século, com Michel Gauquelin (1949), e recentes estudos nos EUA e Inglaterra. Já existem centros educacionais em que a Astrologia é reconhecida como uma área científica, como é o caso do Kepler College, nos EUA, que desde 2000 é autorizado a fornecer bacharelado e mestrado em estudos astrológicos, e da Faculty of Astrological Studies, fundada em 07 de junho de 1948, em Londres.

Hoje, vê-se a utilização de recursos, como o mapa astral, visando um conhecimento a respeito das potencialidades humanas. Este movimento parece aproximar-se de buscas espiritualistas, que procura dar vazão à individualidade do ser humano, integrando necessidade teórica e filosófica, fé e cuidado mental e físico, um movimento típicos da "Nova Era".

Isto só ilustra como é indefinido teoricamente o espaço da Astrologia e como esta indefinição atravanca a o processo científico, que precisa estar constantemente atualizando-se em seus paradigmas e verdades.

1-MORIN, Edgar et al. - O retorno dos astrólogos: diagnóstico sociológico - Lisboa: Portugal: Moraes Ed., 1972. (cap. 1, p. 15).
2-CHIAVENATO, Jean J. - Religião: da origem à ideologia - Ribeirão Preto, SP: FUNPEC, 2002. (cap 2)
3-PLOTINUS. Ennead II-3-1. Tradução de A.H. Armstrong. Cambridge: Harvard University Press, 1966.
4- WEST, John Anthony - Em defesa da astrologia - São Paulo: Siciliano, 1992.
5- MACHADO, Cristina de Amorim - Considerações acerca da cientificidade da Astrologia, à luz das teorias de Popper, Kuhn e Feyerabend - monografia apresentada no curso de graduação em Filosofia na UERJ, 2004.
6- Idem à nota anterior
7- MARTINS, R. A. "A influência de Aristóteles na obra astrológica de Ptolomeu (O Tetrabiblos)" in Trans/Form/Ação. SP: 1995 - p. 51-78.
8-MORIN, Edgar et al. - O retorno dos astrólogos: diagnóstico sociológico - Lisboa: Portugal: Moraes Ed., 1972. (cap. 2, p. 31)
9- AGOSTINHO, Santo - Confissões - tradução: Maria Luiza Jardim Amarante - São Paulo: Paulus, 2002.
10-Nostradamus:vida e pensamentos - São Paulo:Ed. Martin Claret,2001.
11-MACHADO, Cristina de Amorim - Considerações acerca da cientificidade da Astrologia, à luz das teorias de Popper, Kuhn e Feyerabend - monografia apresentada no curso de graduação em Filosofia na UERJ, 2004, p. 15.
12-MORIN, Edgar et al. - O retorno dos astrólogos: diagnóstico sociológico - Lisboa: Portugal: Moraes Ed., 1972. (cap 2, p. 29)
13- PIERUCCI, Antônio Flávio - A Magia - São Paulo: Publifolha,2001.
14-AMARAL, Leila - Carnaval da Alma: Comunidade, Essência e Sincretismo na Nova Era - Petrópolis: Vozes, 2000