Como Um Vício Se Forma?
O princípio dos hábitos – sejam eles bons ou maus – é o
prazer. Você só repetirá um determinado ato, se no mínimo
ele lhe der algum tipo de prazer, seja de natureza física ou
psicológica. Quase sempre o prazer está associado à natureza
psicológica do ser humano,assim diremos teoricamente que a
repetição de um vício tem como elemento de reforço a
satisfação psicológica.
Como descrever o bem-estar que um fumante tem ao aspirar e
expirar a fumaça do seu cigarro ou charuto? Que palavras
usar para descrever a satisfação sentida pelo jovem que
inala o pó da cocaína ou injeta-a diretamente na veia? Onde
encontrar expressões para descrever o prazer da jovem que
bebe sofregamente litros de cerveja ou outra bebida com
forte teor de alcoólico?
Ninguém tem esse poder. É possível apenas falar-se que é
maravilhoso, delicioso, muito bom, um barato, beautiful, mas
nada poderá ser dito além disso. Só quem experimentou é que
pode sentir. Feliz porém daqueles que não experimentaram
pós, fumaças, líquidos ou outras práticas viciadoras e
destruidoras, tais como o álcool, as drogas, as perversões
sexuais, etc.
Em um laboratório, colocou-se um pequenino rato numa gaiola
e um mecanismo para que ao tocá-lo com o focinho, deixasse
cair num recipiente algumas gotas de cocaína. Aquele rato
nunca havia experimentado um tipo de droga como aquela, mas
no primeiro momento em que tocou na barra fazendo cair a
droga no recipiente, foi bebê-la e logo a seguir manifestou
um comportamento bem diferente do normal. Inicialmente o
ratinho começou a correr de um lado para outro, fiando
depois de pernas para cima e depois pulando sobre as patas
traseiras. Sua excitação era visível. Soltou grunhidos
estranhos e urinou muitas vezes num pequeno espaço de tempo.
Decorrido alguns minutos, quando teria passado o efeito da
poderosa droga, o ratinho procurou um canto da gaiola e lá
ficou quietinho, mostrando-se visivelmente abatido, cansado
e com a aparência doentia. Mas, para surpresa dos
pesquisadores, arrastou-se até a alavanca que liberava a
droga e acionou-a com o focinho, indo em seguida beber do
líquido que havia gotejado no recipiente. Tal ato se repetiu
por quase uma dezena de vezes, até que o ratinho caiu
fulminado pela conhecida overdose, que nada mais é que um
excesso de droga no organismo que provoca a morte imediata.
O ciclo que o ratinho experimental fez, foi muito parecido
com o que é feito por pessoas viciadas em drogas. Primeiro
elas experimentam e ficam excitadas. Depois do efeito da
droga, voltam ao estado natural que também acompanhado por
uma grande depressão e tristeza, levando a pessoa a procurar
outra vez a droga para excitar-se. O ciclo se repete
incontáveis vezes até que o indivíduo morra ou sofra
distúrbio orgânicos tão sérios que acabam por adoecê-lo
terrivelmente, onde é levado a tratamentos especializados.
O homem é um animal racional, o ratinho de laboratório é um
animal irracional. A grande diferença está exatamente aí. O
abismo entre o homem e o macaco é enorme. De um lado temos o
ser humano fabricando drogas para seu conforto e prazer e
morrendo prematuramente. Do outro lado, temos o animal
irracional vivendo segundo as leis da sua natureza,
atingindo quase sempre o final do seu ciclo vital, quase sem
esforço, sem uso de drogas medicamentosas ou dietas
especiais. Bem, tudo isto é o óbvio e o que quero que você
compreenda é o fato de sermos racionais mas não termos a
capacidade de escolher apenas as coisas que de fato nos
fazem bem, real e indiscutível. As drogas fazem bem apenas
aparentemente e são poucos os que não sabem disso. Mitos são
levados pela curiosidade e acabam sendo presos na malhas do
desconhecido. Fazem uma viagem sem retorno ao mundo das
drogas e de lá nem sempre voltam, ou quando voltam estão tão
desfigurados que mal podemos chamá-los de seres humanos.
Mas nem todos os viciados estão condenados à morte
prematura, pois dependendo do tipo de vício, das condições
orgânicas de cada indivíduo, da repetição do vício e da
dosagem do vício, alguns escapam ilesos por anos a fio. Mas
nem sempre é possível conhecer-se os limites de cada um. Bom
seria se pudéssemos. Mas de fato é impossível saber-se se um
indivíduo ao tomar a primeira dose de bebida alcoólica se
tornará um alcoólatra a partir dali.
O princípio do prazer está entranhado em todos os tipos de
vício, seja o de masturbar-se compulsivamente, atirar pedras
em vidraças alheiras ou jogar todas as noites nas roletas.
Todas estas coisas conferem ao experimentador (o viciado)
algum tipo de satisfação.
Se os vícios dão prazer, então por que combatê-los? Por que
não deixar que cada um viva à sua própria maneira e segundo
seus desejos? Que mal pode existir em satisfazer-se os
desejos? Estas são algumas das perguntas idiotas que grande
parte dos viciados fazem ao seus terapeutas, e a todos
aquele que lutam para combater os vícios.
De algum modo, certos vícios são de fato prejudiciais
unicamente ao próprio indivíduo que os praticam. A
masturbação pode ser um bom exemplo. Ora, que mal pode
existir num indivíduo que se recolhe na intimidade do
banheiro ou quarto e pratica o seu ato de prazer? Mesmo que
o faça por horas seguidas, que mal ele estará fazendo à
humanidade? Que mal estará fazendo a sim mesmo? Não é fácil
encontrar uma resposta adequada, pois de certo modo, não há
nenhum mal aparente.
No passado, os religiosos e até mesmo a ciência médica,
queriam combater a masturbação, por julgá-la nociva à saúde.
Os religiosos tomavam-na como um pecado e o masturbador
deveria pagar penitência pelo ato indecoroso aos olhos de
Deus. Mas estes anos de ignorância já se foram, pelo menos
para a maioria de nós, e hoje se sabe que a masturbação é
algo perfeitamente saudável e benéfico no desenvolvimento da
maturação sexual dos indivíduos. Sabe-se inclusive que
algumas espécies de macacos se masturbavam quando não
encontravam um fêmea para a cópula, dando-nos uma prova
irrefutável de o ato masturbatório pode agir como válvula de
escape perfeitamente válida e saudável para o desejo sexual.
Como citei anteriormente, relatando nas próprias palavras de
um rapaz de 25 anos (P. R.) a masturbação nele constituía-se
um problema, uma vez que não se sentia normal como todo
mundo. Para ele, a masturbação não era apenas uma válvula de
escape para o desejo sexual, mas também era uma compulsão
terrível que o levava até mesmo rejeitar uma mulher,
preferindo masturbar-se em vez de ter com ela uma relação
sexual. Contou-me aquele desesperado rapaz que doía-lhe os
órgãos genitais, pelo esforço exagerado que fazia ao se
masturbar até 8 vezes por dia!
Como você pode perceber, existe um limite para cada
indivíduo. Alguns podem se masturbar 15 vezes por dia e
terem disposição para uma noitada com mulheres, outros mal
conseguirão manter a ereção após uma relação sexual... após
três horas da primeira. O limite para cada indivíduo talvez
seja a fronteira tenebrosa e perigosa que muitos devem
evitar. Deixar-se dominar por um vício prejudicial à saúde
do corpo e da mente, é na verdade um suicídio consciente
para muitos, Infelizmente para outros, este suicídio é
inconsciente. É o que se dá com crianças que fumam maconha
ou fazem uso de entorpecentes mais pesados tais como
morfina, heroína e mesmo o álcool, que conduzem a inevitável
dependência física. No caso da maconha, o LSD e mesmo a
cocaína não causam dependência física, mas não significa que
seu uso causará menos males ao corpo e à mente de qualquer
pessoa usuária. O suicídio será mais lento ou menos lento de
acordo com os limites de cada um, as dosagens ingeridas,
etc.
Já que estabelecemos que o fator principal para a instalação
de um vício é o princípio do prazer que este confere ao
indivíduo, que poderemos fazer então para substituir este
princípio, se isto é possível? Sendo o prazer algo tão forte
e poderoso, o que pode ser feito para superá-lo?
Mathias Gonzalez