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Há Luz No Fim Do Túnel.
CARLOS ROGÉRIO LIMA DA MOTA
Eu tinha todos os motivos para nunca mais escrever, para
deixar de lado a poesia das palavras, o sentimento real que
brota de cada conto ou trama novelesca que criei ao longo de
16 anos de profissão, entretanto, desisti desta idéia e
resolvi encarar novamente o teclado e abordar com coragem os
fantasmas que quase me fizeram abandonar o mundo mágico da
criação.
Quando escrevia semanalmente, era comum receber críticas,
elogios e todo tipo de sugestão pelo meu trabalho. Vivia por
isso e para isso, porque escrever, para mim, era muito mais
do que consoantes e vogais ordenadas numa linha do papel:
escrever era o meu refúgio, uma forma diferente de me
expressar ante a um mundo dominado pela ausência de
intimidade entre as pessoas. Eu escrevia para milhares,
dizia o que pensava acerca dos temas da atualidade, invadia
o imaginário de centenas de dezenas de leitores - amigos
anônimos, despertando-lhes para os grandes temas globais.
Digo “era” porque talvez nem volte mais a escrever e sabem
por quê? Percebi, de repente, que alguma coisa estava errada
comigo, afinal, aos poucos era desbravado por uma insônia
voraz, perdia a vontade de comer, de brincar com meus
filhos, de estudar profundamente as obras imortais que tanto
me comoviam e me transportavam para universos paralelos em
que o “amor ao próximo” era a essência mais preciosa das
coisas. Assim, da alegria originava-se a tristeza, do amor o
ódio...
A melancolia, como a noiva das trevas, encobria-me com seu
véu e me aprisionava em uma masmorra, cujas paredes
invisíveis prenunciavam o medo. Meu desespero crescia a
ponto de tudo perder a cor, o brilho natural... Imaginem-se
diante do espelho, sem reflexo, destituído de corpo e alma.
Assim eu me via, assim eu me sentia!
O próximo passo foi relegar minha auto-estima à cova do
esquecimento e deixar de curtir tudo o que gostava. Durante
anos, mantive o mesmo hábito: chegar em casa às 20h - depois
de 12 horas de exercício profissional, tomar um banho,
jantar e ler os jornais do dia, na verdade, devorá-los, até
com mais prazer que a própria refeição. Cada comentário
político ou notícia relevante, fosse cultural ou mesmo
policial, conduzia-me a um mundo maior que o meu,
causando-me indignação e, em alguns casos, comoção. Foi
assim que acompanhei o caso Isabella, que parou o país por
mais de um mês, e assisti à crise financeira levar os
mercados americanos à bancarrota. Mas, ao invés de ser
desafiado por uma curiosidade sagaz como outrora, passei a
deixar os jornais de lado e a dormir. Por incrível que
pareça, minha noção do tempo já não mais acompanhava a
rotina da realidade, como se a vida não despertasse mais
interesse... Que assustador! Por isso, a morte, naquele
momento, apresenta-se como a opção mais atrativa!
Atormentado, meu coração batia sem rumo, esmorecendo um
corpo já em ruínas. Aos poucos, minha vocação esvaía (sou
professor, adoro lecionar, manter os laços de cordialidade e
companheirismo com minhas crianças – assim chamo meus
alunos), o talento não mais reluzia! Era a versão tupiniquim
de Lord Byron – o poeta romântico inglês, cujo talento
voltava-se à autodestruição. Sem que percebesse, eu estava
sendo vítima das artimanhas nefastas de um “verme” poderoso,
capaz de partir meu interior em versões destoantes,
instigando um confronto de egos sem precedentes. A sensação
de ameaça, de morbidez, aliada à necessidade do isolamento,
tornava-me estranho, tão estranho que assustava aos meus
familiares e a mim mesmo.
A luz vermelha acendeu-se quando pensamentos suicidas
invadiram minha mente. Foi a partir daí que resolvi procurar
a ajuda de um profissional. Após este relato, o médico
voltou-se para mim e disse que eu estava com DEPRESSÃO -
doença grave, porém, tratada com desdém por parte da
sociedade conservadora, que a considera “doença de rico” ou
simplesmente “vadiagem”.
E o que aconteceu para que eu chegasse ao fim do túnel? A
priori, uma associação “suicida” de estresse com excesso de
perfeccionismo. Bem, este artigo é apenas mais um
instrumento que encontrei para me resgatar. Se o fiz bem
feito não sei, espero apenas ter ajudado a muitos que, como
eu, vivem este verdadeiro inferno introspectivo, até porque,
só quem passa ou passou por essa experiência é capaz de
dimensionar o quão letal ela é.
O importante é saber que a Depressão tem cura, desde que
tratada a tempo por bons profissionais e medicada conforme a
gravidade dos sintomas. O que não vale é ficar em casa,
deixar a vida fugir pelas mãos, como se não houvesse luz no
fim do túnel, certo?
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